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12/07/08
Montagem sobre foto AFP

O título que fez a França ressurgir
Por Felipe Held, especial para a Gazeta Esportiva.Net

Foto AFP
Zidane levanta a taça: a glória suprema da França

A surpreendente campanha da França em 1998, que culminou com o título mais importante do futebol mundial, foi o início de uma era vitoriosa para a seleção gaulesa. Após dez anos no ostracismo, os Bleus se tornaram, durante muito tempo, o principal time do futebol mundial – revivendo os tempos áureos da década de 1980. 

Liderada pelo craque Michel Platini, a França foi uma das principais forças durante os anos 80. Os Bleus

começaram o decênio com um surpreendente quarto lugar na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, perdendo nos pênaltis as semifinais para a Alemanha Ocidental e a decisão do terceiro lugar para a Polônia.

Dois anos depois, no entanto, o futebol francês viveu aquilo que seria seu auge até então. Na Eurocopa que sediou, os gauleses conquistaram de forma inquestionável a taça do Velho Continente, com cinco vitórias nos cinco jogos realizados – na final em Paris, bateu a Espanha por 2 a 0.

O embalo ao som da Marselhesa prosseguiu na Copa do México, em 1986, quando a França eliminou o Brasil nos pênaltis nas quartas-de-final, em Guadalajara. Na etapa seguinte, no entanto, voltou a cair diante da Alemanha Ocidental, por 2 a 0, mas acabou com o terceiro lugar do Mundial graças à vitória por 4 a 2 sobre a Bélgica, na prorrogação.

Mas a fase arrasadora da França ficou por aí. Coincidentemente ou não, após Platini deixar a seleção em abril 1987, semanas antes de se aposentar do futebol com 32 anos. O impacto da perda do camisa dez, grande ídolo do país, ficou evidente nas competições subseqüentes: a França não se classificou para a Euro-88 e nem para as Copas do Mundo de 90 e 94, além de ter passado vergonha na Euro-92, caindo na primeira rodada.

As coisas passaram a mudar justamente em 1994, quando um novo meia entrou em campo em um amistoso contra a República Tcheca aos 18 minutos do segundo tempo. A França perdia por 2 a 0, mas o reserva Zinedine Zidane marcou duas vezes em sua estréia pela equipe nacional e ganhou a confiança do técnico Aimé Jacquet.

O moral do meia do Bordeaux com o técnico dos Bleus era tão grande que Zizou acabou ganhando a titularidade após o badalado e polêmico Eric Catona, do Manchester United, pegar um ano de suspensão do futebol em 1995 por ter agredido um torcedor do Crystal Palace.

Com a camisa dez às costas, Zidane decepcionou na campanha da França semifinalista da Euro-1996. Mas, dois anos depois, na Copa do Mundo que o país sediaria, foram do maestro de ascendência argelina os dois gols que abriram caminho ao inédito título do Mundial, na final contra o favoritíssimo Brasil.

Eleito melhor jogador daquela Copa e, no final do ano, o melhor do mundo de acordo com a Fifa, Zidane ganhou status de craque; e a França, de potência. Nos Países Baixos de Holanda e Bélgica, o camisa dez foi novamente o destaque do bicampeonato francês no título da Euro – abrindo caminho para que os Bleus se tornassem os donos do melhor futebol do mundo segundo a Fifa, que colocou o país no topo de seu polêmico ranking.

Então campeã da Copa do Mundo, da Eurocopa e da Copa das Confederações de 2001 (batendo inclusive o Brasil de Émerson Leão nas quartas-de-final), a França chegava para o Mundial da Coréia e do Japão com status de favorita e, para alguns, virtual bicampeã. Mas uma lesão muscular tirou Zidane das duas primeiras partidas, e o mundo se surpreendeu com a derrota por 1 a 0 para a desconhecida equipe de Senegal na abertura do torneio e com o empate por 0 a 0 com o Uruguai.

Zidane voltou para o sacrifício para o jogo da terceira rodada contra a Dinamarca, mas os gols de Dennis Rommedahl e Jon Dahl Tomasson colocaram o país nórdico nas oitavas-de-final, e relegavam a gigante França à eliminação com a última posição do grupo A, sem marcar um gol sequer.

A França conseguiu minimizar a vexatória queda de 2002 com o título da Copa das Confederações de 2003, mas não conseguiu uma campanha gloriosa na Eurocopa de Portugal de 2004: parou nas quartas-de-final, sendo vitimada pela surpreendente Grécia.

O ano de 2006 chegou e, com ele, a notícia que surpreendeu o mundo do futebol: na iminência de completar 34 anos, Zidane agendara sua aposentadoria assim que a Copa do Mundo terminasse. O gênio três vezes melhor do mundo (1998, 2000 e 2003) deixaria os gramados assim que a seleção francesa caísse fora do Mundial da Alemanha.

Mesmo com o craque camisa dez em campo, os Bleus não conseguiram mais do que dois resultados pífios nas duas partidas iniciais: empates por 0 a 0 com a Suíça e por 1 a 1 com a Coréia do Sul. A França esteve perto de ver o vexame de quatro anos atrás se repetir, e desta vez sem Zidane, que recebeu cartões amarelos nos dois jogos iniciais e teria que cumprir suspensão contra a fraca equipe de Togo.

Mas Patrick Vieira e Thierry Henry marcaram um gol cada contra os africanos e deram sobrevida à carreira de Zidane, que não se aposentou sem jogar sua última partida propriamente dita. E melhor: classificaram a França para as oitavas-de-final, contra a Espanha.

David Villa abriu o placar para a Fúria aos 28 minutos do primeiro tempo, mas Frank Ribéry deixou tudo igual aos 41. O jogo se encaminhava para a prorrogação quando Vieira virou para a França aos 38 do segundo tempo, e Zidane selou a continuação de sua carreira ao marcar o 3 a 1, aos 47. Vaga para as quartas-de-final, e confronto com o badalado Brasil.

Mesmo com o quadrado mágico de Parreira – que tinha à sua disposição um elenco estrelar com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo –, o Brasil não resistiu à genialidade de Zidane. Inquestionável em campo, o camisa dez ainda foi o responsável pela jogada que mais uma vez frustrou uma pátria de chuteiras: aos 12 minutos do segundo tempo, cobrou uma falta na área, contou com a desatenção de Roberto Carlos e do restante da zaga verde e amarela e viu Henry desviar para as redes de Dida, fazendo com que os Bleu seguissem vivos na Copa.

Se contra o Brasil foi o autor ‘apenas’ da assistência do gol da vitória, diante de Portugal nas semifinais foi de Zizou o pênalti que deu a vitória por 1 a 0 da França contra os comandados de Luiz Felipe Scolari. E Zidane teve a chance de encerrar sua carreira da melhor forma possível: levantando a Copa do Mundo.

O capitão da equipe gaulesa viu esse sonho ainda mais perto quando marcou de pênalti (quase ao estilo Djalminha) o gol que colocou a França em vantagem por 1 a 0 contra a Itália na decisão, logo aos sete minutos de jogo. Mas o zagueiro Marco Materazzi, autor da penalidade máxima no início da partida, redimiu-se com o gol de empate, aos 19 da etapa inicial.

Foto Reuters/ Gazeta Press
Cabeçada em Materazzi: o último lance da carreira

A rede não balançou mais em Berlim até o final do tempo normal, e a final da Copa foi para a prorrogação. Apenas pelos gols marcados, Zidane e Materazzi já seriam considerados os grandes destaques da partida, mas ganharam evidência ainda maior aos dez minutos da segunda etapa da prorrogação.

Após uma discussão, o zagueiro italiano teria xingado a irmã de Zidane, que, revoltado, respondeu os insultos com uma cabeçada certeira no peito de Materazzi. A cena marcou a Copa de 2006 e ainda fez com que a carreira do principal responsável pela era vitoriosa da França terminasse: o camisa dez foi expulso de campo, e sequer viu a Azurra vencer nos pênaltis por 5 a 4 e faturar o tetra.

Sem Zizou em campo, a França voltou a ter problemas para conseguir se impor no cenário internacional, e suou para conseguir a classificação para a Euro-08 – carimbou o passaporte apenas graças à Itália, ironicamente, que na última rodada venceu a Escócia e impediu o país britânico de passar os gauleses na tabela do grupo C.

Mas os franceses acabaram levando azar ainda no sorteio de grupos da fase principal da Euro: caíram no grupo da morte, ao lado de Itália, Holanda e Romênia. Sem Zidane e nem uma vitória sequer, a França deixou o torneio continental pela porta dos fundos, ainda na primeira fase, com um empate e duas derrotas.

Embora os franceses ainda discutam qual dos dois ídolos foi o melhor da história de seu futebol, um fato emerge para, aparentemente, acirrar ainda mais as conversas: tanto Platini como Zidane foram os grandes nomes nas duas fases áureas da seleção azul.
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