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12/07/08
Montagem sobre foto AFP

Aimé Jacquet: 'Eu era apenas uma peça na engrenagem'
Por Vincent Machenaud, especial para a GE.Net

Foto AFP
Jacquet entrou para a história com o título inédito

Aimé Jacquet sempre foi um vencedor. Primeiro como jogador. Volante dos bons, faturou nada menos que cinco títulos franceses e três Copas da França com o Saint-Étienne na década de 60 e chegou a ser convocado em duas oportunidades para a seleção francesa (em 1968). Como técnico, brilhou à frente do grande time do Bordeaux dos anos 80, conquistando mais três títulos nacionais e outras duas Copas da França.

Em 1991, sua vida muda radicalmente quando é contratado pela Federação Francesa para integrar a DTN (Direção Técnica Nacional). Já no ano seguinte, vira auxiliar de Gerard Houlliet à frente da seleção francesa. O fracasso retumbante da não-classificação ao Mundial dos Estados Unidos, em dezembro de 1993, custa o cargo a Houlliet, mas não o atinge. Ao contrário, é ‘promovido’ e herda o comando dos Bleus.

Já no primeiro jogo, em fevereiro de 1994, o novo comandante quebra um tabu histórico de 82 anos sem vencer a Itália fora de casa – 1 a 0 em amistoso, em Nápoles. Era o começo de uma bela aventura que passaria pela classificação à Euro 1996 (o time só caiu nas semifinais ao ser derrotado nos pênaltis pela República Tcheca) e terminaria no dia 12 de julho de 1998, no Stade de France, com a consagração final: o único título mundial da história da França.

Logo após a final da Copa, Jacquet anuncia sua saída da seleção francesa para assumir o comando da DTN, posto que ele deixaria somente no dia 31 de dezembro de 2006. Hoje, aos 66 anos, é um “aposentado feliz”, como ele mesmo se define. Exerce ocasionalmente a atividade de consultor na TV para o Canal+ e no rádio para a Europe 1.

Em entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Jacquet  volta ao 12 de julho de 1998 e revela uma orientação tática que praticamente selou o destino da decisão: informações passadas a Zidane na manhã da final sobre a fraqueza dos adversários nas bolas paradas e dicas de como se posicionar na área na hora dos escanteios.

Dez anos depois, que lembranças guarda da Copa do Mundo da França?
A alegria e a emoção que demos às pessoas, como pude constatar viajando para os quatro cantos da França. O povo francês se apoderou desta copa com um orgulho imenso. Para mim, o que resta desta epopéia é ter compartilhado este sucesso com o resto do país. No dia 12 de julho, chegamos ao topo.

Que papel o senhor desempenhou neste triunfo?
O do definidor. Aquele que dá uma identidade, que mostra o caminho. Um papel determinante que consiste em criar uma equipe, um ambiente, ambições; o da pessoa que explica, que convence. Em resumo, o papel do treinador, o homem mais importante nesta aventura, o mais forte, mas também o mais frágil. Só que, depois que a competição começou, virei um pouco espectador, dando lugar ao jogo, aos jogadores. A minha influência já não era a mesma e fiquei até impotente em alguns momentos. No fundo, eu era apenas uma peça na engrenagem.

Poderia citar três momentos-chave deste domingo 12 de julho que o marcaram?
Em ordem cronológica, o treino da manhã, em Clairefontaine, que decidimos organizar na última hora. Passamos informações aos rapazes sobre certos aspectos de jogo dos brasileiros, por exemplo algumas fraquezas nas bolas paradas, escanteios em particular. Naquela manhã, o Zidane recebeu instruções bem precisas sobre como se posicionar em campo e aproveitar essas deficiências. Depois, a viagem de ônibus para o stade de France, em Saint-Denis. Tinha tanta gente na saída do CT e ao longo de todo o trajeto que cheguei a pensar que não chegaríamos na hora para a decisão! Para falar a verdade, fiquei muito assustado!!! Enfim, o momento chave: este sentimento de ruptura que me invadiu quando levantei o troféu, como se não tivesse mais nada a minha volta, um vazio total. Fiquei arrepiado. Um momento indescritível.

Se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente?
Sim, uma única coisa. Apesar de ter profundo respeito pelos mais velhos, simplesmente esqueci na hora de homenagear as antigas gerações, e eu penso mais precisamente à de 1958, de Kopa e Fontaine. Sem eles, não teríamos chegado aonde chegamos.

A seleção de 98 foi a melhor da França em todos os tempos?
Não, foi a melhor da Copa de 1998 e só isso já é formidável. Ela foi exemplar, total no seu comportamento, “magnifique”! Mas não podemos comparar épocas. Acho até que, se o Kopa tivesse jogado com a gente em 1998, ele teria sido eleito o melhor jogador.

Qual era a principal arma da seleção francesa?
A força coletiva. A França era uma equipe como um todo, com uma perfeita distribuição dos jogadores em seus melhores postos. E também tínhamos conosco o extraterrestre necessário neste tipo de competição. É claro que me refiro ao Zidane. Para pretender alcançar grandes títulos, é obrigatório ter um. Um Platini, um Kopa, um Beckenbauer, um Maradona, é indispensável! Se você não possui um jogador de dimensão superior, falta algo. Nós tínhamos a solidez, um time estável, jogadores em boa forma e o mestre chegou. Foi ele que fez toda a diferença.

Antes de virar treinador, o senhor foi jogador e chegou a ser convocado duas vezes para a seleção. Usou essa experiência quando assumiu o comando?
Mas é claro! Quando era jogador, ser convocado representava o apogéu numa carreira. E isso não mudou. Só fui selecionado duas vezes. Não é muito, mais fica com você para sempre.

Mas parece que a realização profissional veio mesmo como técnico da seleção?
É verdade. É uma responsabilidade que te transcende. Quando se está no comando, a exposição é muito grande e foi um prazer enorme. Você vira um exemplo, um líder. Mas a função exige humildade e modéstia, e uma certa sinceridade intelectual, senão você é logo desmascarado. O técnico é um homem apaixonado e generoso e, mesmo nas piores horas, ele precisa se entregar bastante. Deve passar por cima de decepções, contrariedades. Para ocupar este cargo, precisa ser um pouco louco. Na seleção, a única frustração é a de não ter os jogadores sob seu comando todos os dias, como acontece num clube.

O que o título mundial mudou na vida do senhor?
Provocou uma mudança radical na minha existência. Eu não me pertenço mais. Sou conhecido, reconhecido por onde quer que eu vá desde este 12 de julho histórico para o povo francês, e minha vida nunca mais foi a mesma. As pessoas me olham, me espionam, parece que estou representando de forma permanente. É um pouco pesado, às vezes sinto que meu verdadeiro eu não existe mais.

De dez anos para cá, como avalia a evolução do futebol francês?
A vitória nos trouxe confiança em nós mesmos, mas também o respeito dos outros países. E os jogadores franceses são bem aceitos em qualquer parte do mundo.

Que tipo de ligação conservou com aqueles que participaram da conquista?
Uma ligação calorosa. Cada vez que a gente se encontra, é muita alegria. Vivemos tantas coisas juntos! Nos olhamos e é sempre muito intenso. Mas nos vemos pouco. Quando um campeão do mundo está passando por dificuldades, dou uma ligada. Estaremos para sempre conectados.

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