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4/7/2008
Montagem sobre foto de Djalma Vassão / Gazeta Press

Por Felipe Held, especial para a Gazeta Esportiva.Net

Foto Acervo / Gazeta Press
Senna começou a carreira no Rio Branco-SP e, no Brasil, também vestiu as camisas de América-SP, Corinthians, Juventude e São Caetano
Em menos de uma semana, o volante Marcos Senna ganhou uma enorme visibilidade no futebol mundial: sagrou-se campeão da Eurocopa-2008 pela Espanha, viu seu nome incluído na seleção dos melhores jogadores do torneio continental e foi considerado pelos espanhóis o craque da competição. Foi inevitável que surgissem boatos dando conta de que o brasileiro naturalizado espanhol interessava a alguns dos principais clubes do planeta: Manchester United, Arsenal, Juventus...

Mas o meio-campista do Villarreal não pensa, no momento, em deixar o Submarino Amarelo. Satisfeito com o reconhecimento da torcida não só no Estádio El Madrigal como também em toda a Espanha, Marcos Senna pretende continuar na equipe por, pelo menos, mais três temporadas. Nem por isso, contudo, abrirá mão de um de seus maiores sonhos: encerrar a carreira pelo modesto Rio Branco-SP, da cidade de Americana, clube onde iniciou a carreira de profissional em 1997.

“Gostaria de me aposentar jogando por uma equipe brasileira, especialmente no Rio Branco”, admitiu o primeiro jogador sul-americano a vencer a Eurocopa. “Pode ser até que eu passe por um time grande, mas minha vontade mesmo era terminar em Americana. Mas ainda tenho mais dois anos de contrato com o Villarreal, espero que eles me dêem pelo menos mais um e não tem sentido algum eu falar que quero sair da Europa neste momento”.

De volta ao Brasil para passar um mês de férias com a família após o título da Euro, Marcos Senna recebeu a imprensa em um hotel em São Paulo nesta quinta-feira. Em conversa reservada com a reportagem da Gazeta Esportiva.Net, o volante de 31 anos falou sobre o excelente momento que margeia sua carreira e, também, de uma nova tendência no futebol mundial: a presença de jogadores brasileiros em seleções estrangeiras. Algo que, em sua opinião, será extremamente proveitoso para o esporte.

“Depois desse campeonato e de eu ter sido o primeiro sul-americano a ter conseguido esse título, o pessoal vai continuar com esse pensamento e as portas vão continuar se abrindo”, previu. “O pessoal quer ver um grande espetáculo, e os campeonatos no mundo inteiro estão tão fortes porque há muitos estrangeiros por lá”.

Campeão do primeiro Mundial de Clubes em 2000 pelo Corinthians, Marcos Senna também analisou a atual situação do Timão na Série B do Campeonato Brasileiro. Mas não deixou o bom humor de lado. “Esta segunda divisão vai ser muito benéfica para o Corinthians e servirá de exemplo. Não que o clube não tivesse maturidade, mas agora vai ter o mesmo título que o Palmeiras... vai ter o título que não tinha (risos)”, brincou.

Confira:

Foto AFP
Com fama de 'tremer' nos momentos decisivos das competições embora favorita, Fúria não faturava um título desde a Euro-1964, jogada na própria Espanha

Gazeta Esportiva.Net: O que o título da Euro pode mudar na sua carreira?
Marcos Senna: Olha, ainda não parei para pensar nisso. Sinceramente não sei o que pode acontecer daqui para frente. Com certeza coisas melhores virão, mas ainda não sei classificar o que de bom. Agora quero descansar, pegar umas boas férias e depois vou refletir.

GE.Net: Como foi a recepção da torcida espanhola depois do título?
Marcos Senna: Qualquer lugar aonde eu vou na Espanha os torcedores me agradecem. Foi uma coisa que nem eu esperava, e uma alegria enorme. Algo que, a meu ver, só o futebol pode proporcionar.

GE.Net: A Fúria é famosa por ter rixas internas entre jogadores nascidos em diferentes regiões da Espanha. Você sentiu algum medo de ser mal recebido na seleção?
Marcos Senna:
Não achei que haveria problemas. Claro que no início sempre fica essa ansiedade de como você vai ser tratado em Andaluzia, Catalunha... mas sempre me trataram muito bem. Acho que eles me vêem mais ou menos assim: “A briga é nossa, esse não tem nada a ver e fica de fora”.

GE.Net: O Raul era uma má influência no grupo da Espanha? Em 2008, ele saiu da equipe e a Fúria foi campeã da Euro...
Marcos Senna: Tive a experiência de disputar a Copa do Mundo com o Raul e de sentar ao lado dele no ônibus. Pessoalmente, posso dizer que ele é extraordinário, me tratou muito bem. Não sei oficialmente, mas ele deve ter tido problemas com o treinador... até porque fez um bom Campeonato Espanhol e a imprensa ficou em cima do Aragonés pedindo a convocação. Ele teve azar, já que saímos campeões. Mas, em particular, não posso dizer que se trata de uma má pessoa, pois foi muito bom comigo e me ensinou muito.

GE.Net: Se um dia você enfrentasse a seleção brasileira, como se sentiria? Cantaria o Hino Nacional?
Marcos Senna: Sou uma pessoa muito tranqüila, e procuro não confundir as coisas. Se estiver vestindo a camisa da Espanha e enfrentar a seleção brasileira, é claro que não vou cantar o hino, mas o coração com certeza sente. Só que aí, quando o juiz apitar, acabou: o ‘couro come’. Quando alguém te dá uma cutucada por trás, você fala ‘opa’ e não quer nem saber quem é. No entanto, tenho um respeito muito grande pelo Brasil, não tenho qualquer tipo de mágoa. Estou contente com a Espanha, mas vou morar aqui no Brasil quando terminar a carreira e torço pela seleção brasileira. O futebol verde e amarelo é o exemplo, o número um, e vai continuar sendo o melhor por muitos anos.

GE.Net: Você disse que aquele gol que marcou contra o Betis do meio do campo no Campeonato Espanhol havia sido o mais importante de sua carreira. Durante a Eurocopa, no entanto, bateu um dos pênaltis na decisão da vaga para as semifinais contra a Itália. O gol do meio-campo continua sendo o mais importante da sua carreira mesmo depois da Euro?
Marcos Senna:
Aquele gol contra o Betis foi muito importante, até porque ali a gente se classificava para a Copa dos Campeões da Europa, e teve uma importância muito grande. E o gol de pênalti na Eurocopa foi muito importante também... mas não deixa de ser de pênalti, né? (risos). Gostaria que tivesse sido no tempo normal, teria um gostinho diferente. Mas se eu erro a história seria outra.

GE.Net: Além de você, mais cinco brasileiros disputaram a Eurocopa-2008: o Pepe e o Deco, por Portugal, o Roger, pela Polônia, o Kevin Kuranyi , na Alemanha, e o Marco Aurélio, que na Turquia virou Mehmet Aurélio. Será uma tendência a naturalização de brasileiros para integrarem seleções de outros países?
Marcos Senna: Acho que sim. Depois desse campeonato e de eu ter sido o primeiro sul-americano a ter conseguido esse título, o pessoal vai continuar com esse pensamento e as portas vão continuar se abrindo. Mas sei que, quando tiverem a oportunidade de atuarem por uma seleção forte, não vão pensar duas vezes – até porque o Brasil ter uma oferta muito grande de jogadores. O atleta pode cair em um arrependimento depois e falar “caramba, deveria ter aproveitado a oportunidade e não aproveitei”.

GE.Net: Em contrapartida, o Joseph Blatter comentou recentemente que era necessário frear essa emigração de brasileiros. Caso contrário, em 2014 a Copa seria disputada praticamente por jogadores do Brasil...
Marcos Senna:
Isso vai de cada país. Particularmente falando, vi uma Eurocopa com jogos de nível muito superior aos da Copa do Mundo e com muitos estrangeiros. O pessoal quer ver um grande espetáculo, e os campeonatos no mundo inteiro estão tão fortes porque há muitos estrangeiros por lá. Tenho certeza de que se tirarem todos os estrangeiros e houver uma Copa ruim, o pessoal vai querer voltar a ver um futebol bonito, que é a prioridade.

Fotos AFP
Foto Djalma Vassão / Gazeta Press
Um dos destaques da Euro-08, o volante de 31 anos foi considerado pelos espanhóis o craque do torneio

GE.Net: Você está há seis anos na Espanha, e agora foi um dos destaques na campanha do título da Euro. Já se vê como ídolo por lá?
Marcos Senna: Jamais vou me considerar um ídolo, por mais que estejam me tratando como um (risos). Sei que o reconhecimento foi muito grande. Hoje, a pessoa Marcos mudou em relação a como os torcedores me vêem. Fico muito contente com essa identificação.

GE.Net: Quando saiu do Brasil, você era considerado não mais do que um jogador mediano. Hoje, é apontado como um dos melhores volantes do mundo. A que você credita essa evolução tão grande no seu futebol?
Marcos Senna:
Fui adquirindo experiência. Esta foi a minha sexta temporada pelo Villarreal, e ainda tive a oportunidade de disputar Copa do Mundo, Champions League... Quando cheguei à Eurocopa, tinha uma confiança muito grande em mim e no futebol e sabia também da qualidade da seleção espanhola. Por isso, tive uma confiança enorme para jogar contra outras seleções fortes. Não só eu, mas todos os demais jogadores também somaram com a experiência que tinham.

GE.Net: Você vem sendo sondado por várias equipes grandes da Europa, como Manchester United, Arsenal, Juventus... você pretende ficar no Villarreal?
Marcos Senna: O Villarreal não é muito grande, mas é um dos poucos clubes que paga salários quase iguais aos principais times da Europa. Além disso, é um time que está sempre nas primeiras colocações, enquanto equipes com muito mais tradição não conseguem chegar aos pés do Villa. Há rumores de que outros clubes estão interessados em mim, mas a minha intenção é ficar.

GE.Net: Já se vê em final de carreira?
Marcos Senna: Completo 32 anos este mês e você sabe que, com essa idade no futebol, o jogador já está se aproximando do final da carreira. Mas me encontro muito bem, tenho dois anos de contrato com o Villarreal e pretendo que eles me dêem um ano a mais ou dois. Sei que tenho pouco tempo, mas ainda tenho bastantes objetivos na minha carreira.

GE.Net: E já traçou algum plano para a sua aposentadoria?
Marcos Senna: Gostaria de me aposentar jogando por uma equipe brasileira, especialmente no Rio Branco. Pode ser até que eu passe por um time grande, mas minha vontade mesmo era terminar em Americana. Mas ainda tenho mais dois anos de contrato com o Villarreal e não tem sentido algum eu falar que quero sair da Europa neste momento.

GE.Net: Seu irmão, o Márcio Senna, atualmente está no Barueri. Tem-se especulado que ele poderia seguir os mesmos caminhos que você e, no futuro, se naturalizar para atuar por outra seleção. É possível que isso ocorra?
Marcos Senna:
Quando eu estreei na seleção espanhola, eu tinha 29 anos, então nunca é tarde. A carreira de um jogador pode mudar em seis meses, ou em dois. Depende do campeonato que está jogando, do gol que marca... futebol é assim. Sempre digo ao meu irmão que nunca é tarde, que se ele tiver a oportunidade não pode pensar duas vezes. No Brasil é muito complicado, ainda mais para ele que já tem 27 anos.

GE.Net: A Espanha jogou um futebol bonito para conquistar a Eurocopa e assumiu a liderança do ranking da Fifa, e enquanto isso, o Brasil vem sendo muito criticado por atuar de forma muito fechada. Que conselho você daria para a seleção brasileira neste momento?
Marcos Senna: Fico imaginando quem sou eu para dar conselho (risos). Mas, na minha opinião, o Brasil não pode perder o que sabe, que é o lindo futebol que encanta o mundo. Mesmo se estiver mal, quando a seleção brasileira entra em campo, qualquer um do outro lado já fala “Caramba...”. O respeito vai ser sempre enorme. O Luís Aragonés tem uma admiração muito grande pela equipe brasileira, e sempre usa o time brasileiro como exemplo.

GE.Net: Os maiores times que você defendeu no Brasil (Corinthians, Juventude e São Caetano) atualmente estão na segunda divisão. Como você vê essa fase das três equipes?
Marcos Senna: Vejo o futebol hoje muito equilibrado, você não pode confiar na vitória mesmo que você vá jogar contra o Juventus ou o Corinthians do Piauí. O Corinthians não vai ficar muito tempo na Série B, e a não ser que tenha um azar muito grande vai voltar para a primeira divisão no ano que vem. Esta segunda divisão vai ser muito benéfica para o Corinthians e servirá de exemplo. Não que o clube não tivesse maturidade, mas agora vai ter o mesmo título que o Palmeiras... vai ter o título que não tinha (risos).

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